#Cooperativismo: quando o «eu» vence o «nós»

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As manifestações de junho de 2013 ficarão para a história. Existe consenso entre especialistas de seu caráter múltiplo e coletivo, de uma verdadeira manifestação da “rede social” e das demandas individuais de cada componente desta rede. Nas palavras do Prof. Marcos Nobre da Unicamp “cada manifestante era uma manifestação”. Com certeza elas foram a representação de uma nova sociedade multiconectada que emerge em diversas partes do globo. Porém, por de trás da multidão, existe uma pessoa, um indiví­duo, que assume cada vez mais suas próprias necessidades e desejos como grande objetivo de suas ações. O individualismo no mundo atual é a norma.

Esta introdução é válida para contextualizar os resultados de uma recente pesquisa desenvolvida pelo Grupo de Estudos em Marketing e Comportamento do Consumidor (GECOM)1, da Universidade Federal de Lavras (UFLA). A pergunta motivadora do trabalho era simples: “quais os valores que movem os cooperados em seu relacionamento com a organização cooperativa”?

Quando pensamos em uma cooperativa, lembramos basicamente de pessoas unidas em prol de um objetivo em comum, porém, será que este pensamento se manifesta na relação do cooperado com sua cooperativa? Será que a percepção de quem, ao participar ativamente da cooperativa, comprando seus produtos e comercializando eles através dos canais oficiais, é a de que sua participação fortalece a união dos produtores da região? Ou prevaleceriam os interesses individuais do produtor, buscando apenas seus próprios objetivos ou de seu negócio?

A resposta não é simples. As evidencias empí­ricas mostram o cooperado distante da cooperativa. Não no sentido comercial, pois existe uma relação de forte dependíªncia, mas muito mais no sentido de “pertencimento”. O resultado geral costuma ser a insatisfação com a cooperativa ou com o sistema cooperativista. O que chega a ser paradoxal se analisados os benefí­cios diretos e indiretos de uma cooperativa para produtores de determinada região.

O estudo conduzido pelos pesquisadores do GECOM em uma importante cooperativa do Sul de Minas Gerais2 identificou sete valores nesta relação: “satisfação”, “orgulho”, “autoestima e realização”, “tranquilidade”, “famí­lia”, “segurança”, “confiança” e “união e cooperativismo”. Lembrando que estes são valores pessoais que emergem do relacionamento do cooperado com sua cooperativa, e não como o cooperado víª a cooperativa. í‰ justamente nesta diferença que mora o perigo.

Ao analisar seu relacionamento com a cooperativa e os serviços e produtos oferecidos, os cooperados manifestaram interesses utilitaristas, como a busca pela redução de custos, lucro maior, melhoria de sua atividade e produtividade. Estas preocupações com a atividade rural, responsável por sua sobrevivíªncia e de sua famí­lia são importantes, pois, o lucro maior leva ao objetivo declarado nas entrevistas de “honrar com seus compromissos”, e em última instí¢ncia, aos valores de “orgulho, autoestima e realização”.

Outro ponto de destaque foi o fato de que “honrar com seus compromissos” liga ao objetivo de sobrevivíªncia e tranquilidade e a consequíªncia “cuidar melhor da famí­lia”, que faz emergir os valores pessoais de “famí­lia” e “segurança”.

Os cooperados demonstraram, ainda que de forma tí­mida, que o valor de “satisfação” tem relação direta com a “melhoria na atividade”. Trabalhar e ver sua atividade prosperar gera muita satisfação para os cooperados, por diversas vezes, os entrevistados citaram que qualquer sobra de dinheiro seria automaticamente revertida para sua atividade, em detrimento de prazeres pessoais, por exemplo. A paixão pela terra foi citada por alguns, e apesar de não ser significativa no estudo, pode ser ligada ao valor satisfação também.

O homem do campo também tem muito senso de orgulho, em sua vida e em sua atividade, ou seja, se esta vai bem, ele pode “andar de cabeça erguida”, cuidar de sua famí­lia e se permitir uma satisfação pessoal, como “comprar uma moto” ou uma “botina de R$ 150,00” (Citações dos entrevistados). Desta forma, pode-se dizer que a cooperativa e seus produtos e serviços servem como refúgio e fortaleza para estes produtores. Ela fornece ferramentas para sua competitividade e sobrevivíªncia.

A citação da cooperativa como compradora dos produtos produzidos pelo cooperado (leite, café, milho, etc.), que poderia ter muita importí¢ncia como fator de união entre produtores para enfrentar o mercado, também é visto de forma funcionalista, pois liga com o interesse em produtividade e com “ajudar o cooperado na comercialização”.

Da forma como foram citados, todos estes elementos que levam o cooperado a se relacionar e participar da cooperativa estão claramente ligados aos valores sociais competitivos (rivalidade e superioridade) e de individualismo (maximizar o próprio resultado). Claro, não há nada de errado nisso, pelo contrário, demonstra a importí¢ncia do sistema cooperativo no suporte aos seus cooperados.

Estes são aspectos mais funcionais da relação com a cooperativa e exibem um quadro onde o cooperado percebe a cooperativa como uma “boa loja de insumos”, que resolve seus problemas na aquisição de produtos para dar sustentação í  sua atividade. Não aparece até este ponto nenhum valor caracterí­stico da essíªncia do cooperativismo, mas valores sociais competitivos e individualistas.

A visão da cooperativa então é em quase sua totalidade utilitarista, o “eu” vence o “nós”. Porém, cabe uma ressalva importante. Alguns pontos citados de forma incipiente como a cooperativa como suporte para o cooperado e o agrupamento dos produtores em prol de um bem comum tiveram importante ligação com “não ser explorado por terceiros” e “bem coletivo”, que fazem com que surjam os valores “confiança” e “união e coletivismo”. Aqui, existem resquí­cios dos valores sociais cooperativos, como a “igualdade” e “grupo de valorização”.

De forma muito clara no estudo, existe a ideia de que a cooperativa se apresenta para os cooperados como uma mera prestadora de serviços, ou como uma empresa que lhes fornece produtos e serviços. Por outro lado, também é possí­vel observar que os cooperados reconhecem a importí¢ncia da cooperativa, no sentido de oferecer proteção contra a exploração de terceiros. Este pode ser considerado um ponto positivo, uma vez que gera confiança e sentimento de coletividade.

Este texto não pretende exaurir o assunto, mas revela a parte principal da pesquisa e serve como alerta para os gestores de cooperativas em todo o Brasil: vocíªs não passam de uma loja. E isso é ruim? Sim, porque quem faz a gestão de uma cooperativa sabe que muitas vezes não é possí­vel oferecer um adubo mais barato ou pagar um preço melhor pelo café e pelo leite. Se o produtor não sente que faz parte da cooperativa, corre para a empresa que irá lhe fornecer os mesmos insumos a preços melhores ou que pagará mais pelo seu leite ou café. Pouco a pouco, a cooperativa deixa de ser uma ferramenta de fortalecimento da coletividade.

O desafio agora é como reverter esta situação. Assim como os manifestantes de junho de 2013, o produtor e cooperado deseja ser ouvido, quer ter sua voz. Como trazer o cooperado novamente para dentro da cooperativa? Como fortalecer o cooperativismo? Este será o tema de um próximo artigo.

Por *Paulo Henrique Leme
http://www.milkpoint.com.br

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Así lo expresó Domingo Possetto, secretario de la seccional Rafaela, quien además, afirmó que a los productores «habitualmente los ignoran los gobiernos». Además, reconoció la labor de los empresarios de las firmas locales y aseguró que están «esperanzados» con la negociación entre SanCor y Adecoagro.

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